sexta-feira, 19 de março de 2010

O MÁGICO DE OZ

Os estúdios da Warner planejam produzir um remake em 3D de “O Mágico de Oz”, filmado com grande sucesso em 1939 pelo diretor Victor Fleming (“E o Vento Levou”), que catapultou Judy Garland ao estrelato. O filme foi baseado no livro “O Maravilhoso Mágico de Oz”, do norte-americano L. Frank Baum, publicado originalmente em 1900. A obra, uma deliciosa fantasia infantil, conta a história da garota Dorothy, que depois de uma tempestade é transportada com seu cachorro Totó para uma terra desconhecida (Oz). Lá encontra, além de homenzinhos estranhos (Munchkins), muita aventura.

Baum, que já era um autor razoavelmente conhecido, colocou a mão no bolso e custeou a primeira edição, vendendo 90 mil exemplares nos dois primeiros anos. O livro tinha ilustrações do genial cartunista W.W. Denslow, que trabalhou com Baum em outros livros da série, dividindo louros e lucros. Uma guerra de egos os afastou, brigaram, e Denslow acabou comprando uma ilha nas Bermudas, onde torrou todo dinheiro ganho nos tempos de “Oz” e acabou morrendo de pneumonia, totalmente esquecido (depois John R. Neill continuou a ilustrar a série). Muitos, ainda hoje, dizem que sem as gravuras e ilustrações de Denslow o livro não seria o sucesso que foi.

A obra de Baum foi inspiração para peças de teatro, musicais da Broadway, operetas, filmes e mais filmes, livros, HQ, sendo até mote político para campanhas eleitorais. O mundo da cultura-entretenimento se ajoelhou à fantasia de Dorothy e seus amigos, o Homem de Lata, o Espantalho e o Leão (sem esquecer a vilã, a Bruxa Má, que tenta impedi-la de voltar para casa). Baum começou a escrever muito cedo, mas antes do sucesso, como ocorre com muitos escritores, enveredou por vários caminhos tendo sido jornalista, empresário, autor teatral (uma de suas peças, “Maid of Arran”, chegou a obter sucesso), mas nunca deixando de ser um entusiasta da literatura infantil (na época, esse tipo de livro tinha uma abrangência bem diferente da de hoje). Casou-se em 1882 com Maud Gage, filha de Matilda J. Gage, uma proeminente mulher, ativista de várias causas políticas, como o sufrágio universal, que era totalmente contra o matrimônio de sua filha com um aventureiro sonhador como Baum.

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No final da década de 1880 ele e sua família (agora com dois filhos), mudaram-se para Dakota, onde Baum trabalhou por um tempo como comerciante e depois como editor de jornal. Em 1891, já com quatro filhos, viu-se cada vez mais pressionado a ter uma sustentável estabilidade financeira, e mudam-se novamente, agora para Chicago, onde Baum foi repórter e caixeiro-viajante, entre outras coisas. Mas foi lá que ele começou a escrever algumas histórias infantis, que contava a seus filhos todas as noites, sendo uma delas, “Mother Goose” (Mamãe Ganso), publicada em 1897 com relativo sucesso. Animado, Baum decide colaborar em outro livro infantil, “Father Goose” (1889), desta vez com ilustrações de seu futuro ex-amigo W.W Denslow. Agora sim, Baum acertava na mosca, sendo o livro um tremendo best-seller, só suplantado por sua criação do ano seguinte: “O Maravilhoso Mágico de Oz”. Tinha 44 anos quando esta foi publicada, e nem mesmo ele imaginava o alcance que ela teria (o filme de Fleming e Garland foi julgado como a melhor peça cinematográfica familiar de todos os tempos pelo American Film Institute, e a música do filme, “Somewhere over the Rainbow”, é uma das “Canções do Século” eleita pela Recording Industry Association of America).

Baum ficou rico, famoso, tendo escrito quase 70 obras infantis ao longo da vida, sendo inúmeros desses livros baseados na Terra de Oz, como “The Marvelous Land of Oz” (1904), “Ozma of Oz” (1907), “Dorothy and the Wizard of Oz” (1908), “The Road to Oz” (1909), “The Emerald City of Oz” (1910), “The Patchwork Girl of Oz” (1913), dentre outros. O escritor tinha problemas congênitos no coração, o que o levou a ter várias crises ao longo da vida. Com problemas graves na vesícula, Baum entrou em coma por 24 horas e morreu em 6 de maio de 1919, quando segundo testemunhas teria proferido: “Agora podemos atravessar as areias movediças”.

Outros autores continuaram a escrever centenas de livros, roteiros e novelas baseados na ideia original de Baum, incluindo seu filho Roger. Ao final da vida, empreendedor como era (tendo inclusive investido num filme sobre Oz, em 1914), o autor estava repleto de dívidas, sendo seu último livro, “Glinda of Oz”, publicado um ano após sua morte.

Baum foi audacioso, instigante, pretensioso, um visionário como só a literatura pode parir. Colocou como protagonista de sua história uma mulher (a antagonista, Bruxa Má, também é mulher), o que na época não era pouca provocação. Subverteu o “estatuto do herói”, inserindo uma criança como centro da narrativa, e permitindo que os pequenos leitores pudessem se identificar de corpo e alma com a heroína. O mágico, aquele que deveria resolver as carências e aflições dos amigos, é um blefe, destituído de atributos de magia, um farsante. De acordo com os estudiosos da psicanálise infantil, como Marie-Louise von Franz, ou da sociologia, como Dieter Richter ou Johannes Merkel, a fantasia é de fundamental importância para o desenvolvimento infantil, na medida em que possibilita a solução de vários problemas pessoais inerentes ao desenvolvimento e a integração da personalidade da criança.

Talvez Baum não soubesse de nada disso, talvez fosse só um homem dotado de grande sensibilidade infantil, talvez não imaginasse que seu livro pudesse ajudar a romper barreiras (maior reconhecimento da mulher, valorização da criança, etc.), e talvez nem se importasse em saber que sua obra iria impor novas formas de fantasia que até hoje são utilizadas em larga escala. Mas Baum, sabendo ou não, repaginou a indústria dos sonhos (como Lewis Carroll já havia feito com “Alice”) e esculpiu no imaginário de gerações uma das mais ricas fantasias da literatura infantil de todos os tempos.

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